O pão patrimonializado e o hamburguer deslocalizado – modelos alimentares em transformação

Autora: Isabella Magalhães Callia

Resumo

As terras do árido planalto da Murgia, sub-região da Puglia, no sul da Itália, detém a herança milenar do cultivo do grano duro e da panificação. Confirma o poeta latino Horácio, em que, na primavera de 37 a. C., ao visitar a região de sua infância, elogia a qualidade do pão local em seu Livro I, Sátira V, e aconselha aos viajantes de passagem por aquelas terras que o comprem em quantidade. Hoje, a família De Gesù é uma dentre tantas outras, em Altamura, a preservar sua receita original de pão, de geração a geração. É sobre o legado artesanal desta cidade, mantido familiarmente, que o presente trabalho se presta a relatar o caso da focacceria, um pequeno estabelecimento de panificação dos padeiros De Gesù, que favoreceu o fechamento de uma loja McDonald’s. O ocorrido ilustra dois fenômenos da contemporaneidade: o da deslocalização de um alimento, tema de pesquisa da antropóloga Gretel Pelto, e aquele da patrimonialização culinária, que a UNESCO ratifica na Convenção de Paris de 2003, por intermédio da Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial. Inicialmente é posto o cenário no qual a dinâmica dos modelos alimentares se desenrola, sob os preceitos do filósofo francês Paul Virilio. A tônica agravante é a velocidade em que elas ocorrem, por ele nomeada de “commodity moderna”, tornando-se um perigoso elemento civilizador. Como metodologia, foram utilizados artigos da imprensa, italiana e estrangeira, para discorrer sobre a forma pela qual o fato foi explorado nos meios de comunicação. Fez-se relevante referenciar o histórico fascínio italiano pelos americanismos, que ocasionou uma relação de grande permissividade sociocultural. Em seguida são apresentadas características históricas e sociais ligadas ao território e à antepassada prática da panificação, que levaram, em 2003, à inédita patrimonialização de um pão. O produto da cidade de Altamura, ainda hoje tradicionalmente familiar, tornou-se D.O.P. (Denominação de Origem Protegida). Um dos resultados obtidos através das pesquisas foi a verificação do tom de heroísmo conferido ao caso pela imprensa de diversos países, em que focaccia e BigMac desempenham os papéis de Davi e Golias, contrapondo locavorismo e globalização, fatto a mano e made in USA. Tal abordagem pode denotar uma moderna preocupação, em escala internacional, para com a valorização da identidade histórico-cultural alimentar. Como parte das conclusões finais, o artigo aponta que uma tradição familiar e regional se mostrou menos permeável à cultura estrangeira, um ponto crucial de análise. Desta forma, este artigo aventa que não foi um produto que fez falir um fast food, mas sim uma cultura. É apresentado, por meio de inciativas da UNESCO, bem como do movimento Slow Food, que se busca assegurar a divulgação e a perpetuação de saberes e sabores da biodiversidade alimentar, da tradição imaterial, contida em seu povo, porém deste esforço emerge uma inevitável indagação para o futuro: ao se imortalizar um produto, é possível de fato proteger sua origem diante das atuais intervenções humanas sobre a natureza?

Palavras-chave: 1.alimento deslocalizado; 2.alimento patrimonializado; 3.identidade regional; 4.tradição familiar; 5.pão de Altamura; 6. salvaguarda de biodiversidade alimentar