Autores: Carolina Pereira Kechinski (UFCSPA); Tainá Bacellar Zaneti (UFCSPA); Ariane Thiele Lima (UFCSPA); Lorena Cândido Fleury (UFRGS); João Lopes Martin Neto (UFRGS e UNISINOS); Isabel Cristina Kasper Machado (UFCSPA); Valdeni Terezinha Zani (UFCSPA); Caio BonamigoDorigon (UNISINOS); Bruno Garcias (UFRGS); Gabriela Pereira (UFCSPA); Fábio Rohde (UFCSPA); Yasmin Vellinho (UFPel); Sara Schwambach de Almeida (UFRGS).
O contexto atual da alimentação encontra-se em meio à globalização e à padronização cultural com sistemas agroalimentares cada vez mais segmentados, que põem em risco as tradições relacionadas à cultura alimentar local. Ao se conferir à comida e à culinária o status de bem cultural e identitário, elas passam a ser instrumentos de transmissão, de vivência e de valorização das tradições. O resgate cultural da identidade local funciona como mecanismo para o desenvolvimento regional, uma vez que promove, por um lado, a autonomia dos meios de produção e, por outro, a interação em redes, mercados locais, a afirmação cultural e o uso consciente dos recursos naturais. Com o intuito de resgatar e divulgar as receitas tradicionais do Rio Grande do Sul, o objetivo deste estudo foi verificar o cenário das tradições gastronômicas das principais etnias do estado. Para tanto, utilizou-se uma abordagem qualitativa, com pesquisa documental e entrevistas semiestruturadas. Foram realizadas 22 entrevistas com atores-chave, como donos de restaurantes, agricultores, representantes de grupos étnicos e agentes do poder público. A pesquisa foi efetuada nas seguintes cidades: Charqueadas, Jaguarão, Pelotas, Piratini, Rio Grande, Santa Vitória do Palmar e Turuçu. Os dados foram analisados com auxílio do software NVIVO versão 10. A partir das entrevistas infere-se que, em meio ao processo de globalização e consumo cotidiano de produtos processados, muitas receitas, técnicas e pratos tradicionais foram se modificando ao longo do tempo pela busca de praticidade, pela dificuldade de adquirir os ingredientes típicos, principalmente no meio urbano, onde se nota uma desconexão na relação produtor-ingrediente-consumidor. No entanto, essas tradições mantêm-se vivas nos núcleos familiares e nas comunidades, preparadas principalmente aos domingos e dias de festa, manifestando, assim, os traços étnicos que compõem a identidade dos grupos. Além disso, observa-se que os preparos étnicos não estão isolados, apresentado forte ligação com a culinária típica do estado. Assim, o churrasco e o arroz de carreteiro caracterizam-se como os pratos mais apreciados em todas as cidades visitadas, representando uma unidade de identidade regional. Na aproximação com as narrativas que se constituem como objeto desse estudo, verificou-se que, apesar da celebração das tradições ainda resistirem, as receitas, saberes e modos de preparo não estão sendo transmitidos para as novas gerações. Notou-se também que, na intenção de fortalecer a identidade e cultura local, frente ao progressivo distanciamento das tradições e do meio rural, há esforço do poder público em fomentar redes de comercialização direta entre produtores e consumidores e festivais de produtos e preparos típicos.
Palavras-chave: gastronomia, identidade regional, tradição, receitas típicas.